terça-feira, 16 de setembro de 2008

Moda estimula o surgimento de novos cursos

Só o Senac atrai com seus cursos livres até 6 mil pessoas a cada ano; o investimento total passa dos R$ 6 milhões. Sintoma de um mundo globalizado, as ofertas de cursos de moda dirigidos às áreas de negócios seguem em ritmo crescente. A preocupação maior tem sido atender às necessidades de toda a cadeia. Se o São Paulo Fashion Week (SPFW) trouxe visibilidade aos estilistas e inseriu o Brasil no mapa da moda mundial - se não em volume, pelo menos em estilo e conceito - o business representa a maior possibilidade de mercado aos profissionais.

"Achar um estilista é a coisa mais fácil; o difícil é encontrar, por exemplo, quem entenda de distribuição", diz a consultora Luiza Bomeny, representante no Brasil da italiana Marangoni. A consultora Miriam Levinbook faz coro. "As pessoas vão trabalhar nas confecções pensando no glamour das passarelas."

Miriam lembra que na ânsia de atingirem o status de um Alexandre Herchcovitch, aspirantes desprezam o mercado como um todo. A comparação com o estilista, egresso de uma faculdade de Moda, é usada pela consultora para enfatizar a importância do varejo. "A porcentagem dos que podem consumir roupa da C&A, da Riachuelo e das Pernambucanas é infinitamente maior", pondera. Miriam lembra que hoje todas essas organizações trabalham com a figura do coordenador de moda, carreira das mais cobiçadas.

As escolas se esforçam para atender à demanda de um setor que, conforme o BNDES, é o que mais emprega em relação ao capital investido. De cada R$ 10 milhões, seriam 1.575 vagas no segmento de moda, ante 959 no comércio, 626 na construção civil e 52 no de telefonia.

No Senac, que atrai com seus cursos livres até 6 mil pessoas a cada ano, 20% dos programas já são focados em negócios. São workshops, oficinas e programas nas empresas, ou "in company". A verba anual para todos os cursos de moda, o que inclui a faculdade, já passa dos R$ 6 milhões.

A instituição abriu, no mês passado, a uma só vez, cinco novos cursos na área têxtil: computação gráfica aplicada à estamparia; desenvolvimento de produtos; desenho de estamparia para o segmento de cama e mesa; criação de motivos; cores e desenhos em estampas. O objetivo é auxiliar o dia-a-dia de consultores de moda, estilistas, gerentes de produto, compradores, assistentes de compra e representantes em questão delicada: o relacionamento com os fornecedores. Como saber se o preço cobrado é justo se não se sabe identificar que tipo de tintas, fibras e maquinário foram usados na fabricação do tecido?

A necessidade dos assuntos é detectada a partir do relacionamento com executivos que ocupam postos-chave nas empresas. Um termômetro e tanto. Que o diga Olavo Bertoni, gerente comercial da Camasmie, indústria especializada em jacquard para decoração e que há dois anos passou a fabricá-lo também para o segmento de moda. Como vestir uma pessoa não é o mesmo que "vestir" um sofá, começaram os problemas. "Não existia no mercado um engenheiro de produto apto a resolver a questão do encolhimento", conta Bertoni. "Aprendemos a duras penas que cada desenho se comporta de maneira diferente."

Os desafios foram sanados e a Camasmie obteve a carta-patente para o desenvolvimento do jeans-jacquard até 2011. Por conta das dificuldades, a Camasmie, que chegou a desenvolver tecidos para 12 estilistas na edição de inverno da SPFW, na de verão optou apenas por Marcelo Sommer.

Para a consultora Patricia Suplicy, da Oficina de Moda, tudo pode ser uma questão de linguagem. Seu trabalho é ajudar fiações, tecelagens e malharias a melhorar o diálogo entre profissionais das áreas técnicas e de criação, universos tão distintos. "O estilista precisa de pessoa que traduza sua vontade ao setor têxtil e vice-versa", aposta ela, que ministra cursos adequando as duas visões.

Os cursos de moda foram impulsionados pela entrada dos produtos importados. "Quando comecei minha carreira no ramo têxtil, qualquer coisa, mesmo sem qualidade, vendia", conta Miriam Levinbook, com duas décadas e meia de atuação no setor. Nas confecções era típica, prática que ainda persiste nas pequenas, uma única pessoa encarregar-se de todo o processo. "Compravam uma máquina, as linhas, os tecidos, desenhavam a coleção e ainda faziam a propaganda", lembra André Robic, diretor executivo do Instituto Brasileiro de Moda (IBModa). Anacronismo, destaca André, que não encontra vez nos tempos atuais, em que montar uma confecção é tarefa que não sai por menos de R$ 200 mil e requer profissionalismo. Na ânsia de controlar a empresa inteira, eram arremedos de Glauber Rocha e seu propagado - e muito mais bem-sucedido - uma idéia na cabeça e uma câmera na mão.

(Gazeta Mercantil - 08/08/02)